Oh musa britadeira que trouxeste
ruídos decantados da cidade,
empresta-me um som bruto e ligeiro,
tipo turbina dum 347.
Invadas no chão o pavio da cidade,
como um velho explodindo os campos,
mas me acuda dessa chuva celeste
de revólveres, fuzis e morteiros
Britadeira! Levantas minha noite,
antes da luz devorar meus cavalos
e ruminar os bois do meu tempo;
acorda no meu braço o infarto
pra ressentir aquilo que não lembro,
pra não morrer a voz do braço esquerdo!
quarta-feira, 29 de julho de 2009
quarta-feira, 22 de abril de 2009
E NADA NOS PERTENCE (por Tex Jr.)
E nada nos pertence além dos braços
sobre o mundo.
Venham senhores, a manhã recomeça,
o sol aponta a porta das fábricas
e o tremer dos passos renasce.
O rugir das horas não me pertence,
vossos corações tampouco.
E, por favor, não bradem contra meu silêncio,
cansei de ouvir a minha própria história.
E de tudo que foi dito e reescrito
Resta-me uma constelação de mensagens
ao futuro, o amor às feridas.
Se um par de braços movem pelas ruas
carruagens de papel e esperança,
porque, então, um só coração
habitando um único homem?
Nada nos pertence que não seja rua,
átrio, pátio e solos descampados.
Dois braços e a vontade do mundo
e de repente tudo volta a ser nosso,
como nunca fora antes, paradoxo, ocluso.
sobre o mundo.
Venham senhores, a manhã recomeça,
o sol aponta a porta das fábricas
e o tremer dos passos renasce.
O rugir das horas não me pertence,
vossos corações tampouco.
E, por favor, não bradem contra meu silêncio,
cansei de ouvir a minha própria história.
E de tudo que foi dito e reescrito
Resta-me uma constelação de mensagens
ao futuro, o amor às feridas.
Se um par de braços movem pelas ruas
carruagens de papel e esperança,
porque, então, um só coração
habitando um único homem?
Nada nos pertence que não seja rua,
átrio, pátio e solos descampados.
Dois braços e a vontade do mundo
e de repente tudo volta a ser nosso,
como nunca fora antes, paradoxo, ocluso.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
NADA DE NOVO (por Fabrício Fortes)
Nada de novo na esquina.
É inverno ainda, Setembro.
Frouxa-me a pele, me engole;
mole
vagueio.
É tarde ainda, não se zanguem;
cedo pra morte, se bem me lembro.
Venham com trajes de fino corte;
estarei esperando.
Nada de novo. Nada.
O front agora é só um cinzeiro.
Nele envelheço, sonolento;
lento
desapareço.
Já é cedo! Venham! Já é cedo!
Temos a vida toda pela frente;
temos comida e bebida e medo
e temos algum dinheiro.
Nada de novo mesmo.
Eu sei, eu sei, é Setembro.
Em todas as ruas desesperadas,
em todas as casas
é Setembro.
Venham!
É inverno ainda, Setembro.
Frouxa-me a pele, me engole;
mole
vagueio.
É tarde ainda, não se zanguem;
cedo pra morte, se bem me lembro.
Venham com trajes de fino corte;
estarei esperando.
Nada de novo. Nada.
O front agora é só um cinzeiro.
Nele envelheço, sonolento;
lento
desapareço.
Já é cedo! Venham! Já é cedo!
Temos a vida toda pela frente;
temos comida e bebida e medo
e temos algum dinheiro.
Nada de novo mesmo.
Eu sei, eu sei, é Setembro.
Em todas as ruas desesperadas,
em todas as casas
é Setembro.
Venham!
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
CATIVO (por Uiliam Ferreira Boff)
uma falha na face: basta – caminho pro coração
facilmente, tudo engasga de espasmo
soletra alfabeto pra virar um nada
a face, meia faca, amola a pressão do sorriso,
decota o mundo sóbrio – praticidade da vida pro acaso
(mais fácil seria a esmola de uma carranca pra sua metade séria)
absorvido – permeio de si – mastigando meios
coração devorador de metades de pontes
vão ... ficam ... tornam ... e somem
face pra face
boca: caminheiro vertido de vozes
faceta de agulha de verbo: descosturada
de razões desse peito...
facilmente, tudo engasga de espasmo
soletra alfabeto pra virar um nada
a face, meia faca, amola a pressão do sorriso,
decota o mundo sóbrio – praticidade da vida pro acaso
(mais fácil seria a esmola de uma carranca pra sua metade séria)
absorvido – permeio de si – mastigando meios
coração devorador de metades de pontes
vão ... ficam ... tornam ... e somem
face pra face
boca: caminheiro vertido de vozes
faceta de agulha de verbo: descosturada
de razões desse peito...
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
A NÃO-PALAVRA (por Fabrício Fortes)
A fala que mora
no meio das tuas palavras
não se pode pôr no papel.
Veja bem, veja bem,
existem cores por detrás dos nomes,
espinhos brotando nos cantos
dos adjetivos
e um certo medo entre as reticências
bem na hora em que emudecemos.
Procura os morfemas
debaixo das tuas unhas;
banha-te em substantivos e desejos;
mente dizendo a verdade
e erra o tempo verbal de-vez-em-quando.
São por vezes mornas, as palavras
saindo de dentro da tua boca
que fala e em muito cala
o significado
fazendo sumir teus conceitos
e teus contornos.
Escorrem os imperativos
por entre teus dedos
e fogem-te as idéias.
Giram e correm
e se descabelam
e saem do foco da visão
confortavelmente reclusas
pelas paredes sutis
das tuas intenções.
no meio das tuas palavras
não se pode pôr no papel.
Veja bem, veja bem,
existem cores por detrás dos nomes,
espinhos brotando nos cantos
dos adjetivos
e um certo medo entre as reticências
bem na hora em que emudecemos.
Procura os morfemas
debaixo das tuas unhas;
banha-te em substantivos e desejos;
mente dizendo a verdade
e erra o tempo verbal de-vez-em-quando.
São por vezes mornas, as palavras
saindo de dentro da tua boca
que fala e em muito cala
o significado
fazendo sumir teus conceitos
e teus contornos.
Escorrem os imperativos
por entre teus dedos
e fogem-te as idéias.
Giram e correm
e se descabelam
e saem do foco da visão
confortavelmente reclusas
pelas paredes sutis
das tuas intenções.
domingo, 30 de novembro de 2008
SETE SUICIDAS (por Uiliam Ferreira Boff)
O primeiro canto
não serei breve; paciência com o corredor que enxergas...
ah! paredes tolas; nossas cabeças estão degoladas, lá fora.
esse teto é um docel armado por cruzes e tridentes,
e o chão... tudo se dissolve em meio a acidez das passadas...
não há motivos para exasperos, não quero saber do nada mais,
ainda me sobram a cunha das mãos para moldar o que penso,
me sobram os dedos, ainda posso tragá-los e acariciar meus temores
ainda, ainda, ainda há vontades de lembrar do lá fora...
vamos todos, todos degolados, engatinhar no pasto,
enfrentar as pestes psíquicas do próximo vale;
valerá a pena reencontrar o que não sei desse descampado,
encontraremos um espelho deitado refrescando as perdas...
que importa saber dos dez lírios que plantei e você não colheu
meu amor será sempre essa rosa medonha e parca
que estoura quando ninguém mais tem mãos, braços e olhos
não me planto mais, não me rego, nunca me importei com o tempo....
(mentira!
Hoje, as dez da tarde, vou assaltar todas as padarias,
roubar de uma só vez toda a farinha do mundo
e convidar apenas os padeiros para um banquete espetacular,
quebrarei todas as mandíbulas dos dráculas da fila do pão...)
ah! noite perturbada; vou esquecer nosso encontro,
amputarei minhas pernas e doarei todos os meus olhos,
transplantarei para os outros cada ponta de vista que te tenho
e eles verão apenas dias e mais dias e mais dias, eu nunca mais dormirei...
quando olhei para esses telhados, encolhia os vãos desse corpo
e já estarei lá, neles, debruçado: toda a minha preguiça,
me esganiçando com os gatos, uma canção dessas tolas
meditando a queda da sua supremacia egípcia...
não serei breve; paciência com o corredor que enxergas...
ah! paredes tolas; nossas cabeças estão degoladas, lá fora.
esse teto é um docel armado por cruzes e tridentes,
e o chão... tudo se dissolve em meio a acidez das passadas...
não há motivos para exasperos, não quero saber do nada mais,
ainda me sobram a cunha das mãos para moldar o que penso,
me sobram os dedos, ainda posso tragá-los e acariciar meus temores
ainda, ainda, ainda há vontades de lembrar do lá fora...
vamos todos, todos degolados, engatinhar no pasto,
enfrentar as pestes psíquicas do próximo vale;
valerá a pena reencontrar o que não sei desse descampado,
encontraremos um espelho deitado refrescando as perdas...
que importa saber dos dez lírios que plantei e você não colheu
meu amor será sempre essa rosa medonha e parca
que estoura quando ninguém mais tem mãos, braços e olhos
não me planto mais, não me rego, nunca me importei com o tempo....
(mentira!
Hoje, as dez da tarde, vou assaltar todas as padarias,
roubar de uma só vez toda a farinha do mundo
e convidar apenas os padeiros para um banquete espetacular,
quebrarei todas as mandíbulas dos dráculas da fila do pão...)
ah! noite perturbada; vou esquecer nosso encontro,
amputarei minhas pernas e doarei todos os meus olhos,
transplantarei para os outros cada ponta de vista que te tenho
e eles verão apenas dias e mais dias e mais dias, eu nunca mais dormirei...
quando olhei para esses telhados, encolhia os vãos desse corpo
e já estarei lá, neles, debruçado: toda a minha preguiça,
me esganiçando com os gatos, uma canção dessas tolas
meditando a queda da sua supremacia egípcia...
terça-feira, 21 de outubro de 2008
BOCA MALDITA (Por Daniel Retamoso Palma)
A boca mal dita a sombra
do que sabe de si
o corpo
A boca maldita devora-se
em seu silêncio de cratera
sem saliva e língua de látego
para o açoite da própria secura
A boca mal dita o hálito
das bravatas que fermenta
A boca maldita mastiga-se
rumina sua mordaça
com dentes em ruína
Dar consistência de carne
a toda desdita
embora bendiga
a boca mal dita
A boca maldita
arre(...)pende-se do abismo
e abocanha seus ganidos
com domésticos caninos
Toda boca que mal dita
rói os ossos de seu dono
e do algoz lambe as feridas
enquanto lhe implora um trono
A boca maldita se engasga
nos nós da garganta e destila
sarcasmo, retórica e lira
Dá água na boca mal dita
o cheiro de arengas, notícias
Espalha fatos, contradiz
só por gosto contraria
morde a língua e diz que diz
o dito pelo não dito...
- dão-lhe ouvidos e é feliz
Um vampiro narcisista
morderia o próprio dorso
a boca maldita, entretanto
mendiga a mordida de outros
Na salivação da isca
a fome esquece da dor
Na maceração de si
dá-se a pesca ao pescador
Nunca me caluniaram
com petúnias
Quanto às calúnias da lua
confesso que as invoquei
Aos lobos o bobo do homem!
Porém a carniça
que agora estraçalham
com a boca mal dita...
não... essa não me sabe
nem o gosto dos retalhos
que deixei nalguns anzóis
Descuidado dos chacais
que podem morar no homem
O tamanho do deserto
define o tamanho da fome
Sim, o bem me quer
sua última pétala
na flor da petulância
Para a boca maldita
beijar a mão
na falta da boca
desejada, o beijo
enquanto ave libertada
é disparo sem direção
Com o dedo anelar
desenho no leito da sequidão
o matrimônio
entre as lágrimas
e a pele
A boca mal dita o insumo
da réplica resignada
Quanto à camisa de amanhã
guardo a passada
♫
Querubins de panela,
anjos da 1ª hierarquia,
uma última vez:
É preciso repetição
no jogo com as crianças...
Isto é imanência...
não agora que vos digo
mas em todas as vezes
que brincávamos
e a surdez era mais alta
do que o meu ingênuo grito.
Venho de uma Bildung de orelhas.
Muitas orelhas tenho lido,
sobretudo as que nunca escutam.
E de regresso relato:
Os velhos estão vivos depois da fronteira...
Não creio que me escutarão.
Sou papagaio do meu irmão.
Aqui chamamos pandorga
o títere que amarro à língua
da boca maldita.
...
Dar consistência de carne
a toda desdita
embora bendiga
a boca mal dita
Lamento o bocado de prosa
mas se a boca mal dita escarra
ou mesmo bafora em meu nome
não me dá como prêmio tal boca
uma mínima menção honrosa
A boca mal dita a sobra
da memória que vela
os mortos
A boca mal dita a sombra
do que sabem de si
os corpos
Mal dito de outra forma:
as meias-palavras
aos moucos!
do que sabe de si
o corpo
A boca maldita devora-se
em seu silêncio de cratera
sem saliva e língua de látego
para o açoite da própria secura
A boca mal dita o hálito
das bravatas que fermenta
A boca maldita mastiga-se
rumina sua mordaça
com dentes em ruína
Dar consistência de carne
a toda desdita
embora bendiga
a boca mal dita
A boca maldita
arre(...)pende-se do abismo
e abocanha seus ganidos
com domésticos caninos
Toda boca que mal dita
rói os ossos de seu dono
e do algoz lambe as feridas
enquanto lhe implora um trono
A boca maldita se engasga
nos nós da garganta e destila
sarcasmo, retórica e lira
Dá água na boca mal dita
o cheiro de arengas, notícias
Espalha fatos, contradiz
só por gosto contraria
morde a língua e diz que diz
o dito pelo não dito...
- dão-lhe ouvidos e é feliz
Um vampiro narcisista
morderia o próprio dorso
a boca maldita, entretanto
mendiga a mordida de outros
Na salivação da isca
a fome esquece da dor
Na maceração de si
dá-se a pesca ao pescador
Nunca me caluniaram
com petúnias
Quanto às calúnias da lua
confesso que as invoquei
Aos lobos o bobo do homem!
Porém a carniça
que agora estraçalham
com a boca mal dita...
não... essa não me sabe
nem o gosto dos retalhos
que deixei nalguns anzóis
Descuidado dos chacais
que podem morar no homem
O tamanho do deserto
define o tamanho da fome
Sim, o bem me quer
sua última pétala
na flor da petulância
Para a boca maldita
beijar a mão
na falta da boca
desejada, o beijo
enquanto ave libertada
é disparo sem direção
Com o dedo anelar
desenho no leito da sequidão
o matrimônio
entre as lágrimas
e a pele
A boca mal dita o insumo
da réplica resignada
Quanto à camisa de amanhã
guardo a passada
♫
Querubins de panela,
anjos da 1ª hierarquia,
uma última vez:
É preciso repetição
no jogo com as crianças...
Isto é imanência...
não agora que vos digo
mas em todas as vezes
que brincávamos
e a surdez era mais alta
do que o meu ingênuo grito.
Venho de uma Bildung de orelhas.
Muitas orelhas tenho lido,
sobretudo as que nunca escutam.
E de regresso relato:
Os velhos estão vivos depois da fronteira...
Não creio que me escutarão.
Sou papagaio do meu irmão.
Aqui chamamos pandorga
o títere que amarro à língua
da boca maldita.
...
Dar consistência de carne
a toda desdita
embora bendiga
a boca mal dita
Lamento o bocado de prosa
mas se a boca mal dita escarra
ou mesmo bafora em meu nome
não me dá como prêmio tal boca
uma mínima menção honrosa
A boca mal dita a sobra
da memória que vela
os mortos
A boca mal dita a sombra
do que sabem de si
os corpos
Mal dito de outra forma:
as meias-palavras
aos moucos!
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